O Festival de Cinema tem 54 edições, o Serrazul faz parte desde a primeira.
Conheça essa história e participe do quiz ao final da leitura.
Inaugurado trinta dias antes da primeira edição do Festival, o Serrazul cresceu junto com o cinema em Gramado. A menos de 200 metros do Palácio dos Festivais, o hotel acompanhou estreias, encontros e acontecimentos que marcaram mais de cinco décadas da cidade.
1. 1972: um hotel construído para o que estava por vir
No início dos anos 70, Gramado ainda era uma pequena cidade de veraneio. As famílias de Porto Alegre subiam a serra no verão em busca do clima mais ameno, e a cidade contava com apenas dois hotéis. Mas esse cenário estava prestes a mudar.
Entre 1969 e 1971, as mostras de cinema realizadas durante a Festa das Hortênsias despertaram o interesse do público, da imprensa e do meio artístico. Aos poucos, ganhava força a ideia de transformar aquelas exibições em um festival de verdade. Com ela, surgia uma pergunta inevitável: onde receber todas as pessoas que começariam a chegar?
Foi nesse contexto que, em 11 de dezembro de 1972, José Francisco Perini, ex-prefeito da cidade e sua esposa, Hermida, inauguraram o Hotel Serra Azul. Não foi apenas uma coincidência de datas: o hotel já nascia atento ao futuro que se desenhava para a cidade.
Exatamente 30 dias depois, em 10 de janeiro de 1973, começava o primeiro Festival de Cinema de Gramado. O evento, inicialmente pensado como uma mostra regional para valorizar a produção audiovisual gaúcha, rapidamente ultrapassou as fronteiras do estado e colocou Gramado no calendário dos grandes acontecimentos culturais do Brasil.
Hotel e Festival pertencem à mesma geração. Nasceram no mesmo verão, cresceram lado a lado e ajudaram a transformar a história da cidade. Mais de cinco décadas depois, o Festival segue como um dos mais longevos do país, e o Serrazul continua acompanhando essa trajetória desde a primeira edição.
2. O papel do Serrazul para o Festival
Hoje, o Festival de Cinema de Gramado é um evento consolidado, nos primeiros anos, porém, a realidade era completamente diferente. A cidade ainda tinha pouca estrutura, o evento buscava seu espaço no calendário cultural do país e cada edição dependia do esforço de quem acreditava em seu futuro.
O Serra Azul acreditou desde o primeiro momento. Presente desde a edição inaugural, o hotel apoiou e patrocinou o Festival por mais de 25 anos, em diferentes momentos de sua trajetória, acompanhando seu crescimento e sua consolidação. Mais do que cenário dessa história, ajudou a torná-la possível.
Essa presença ficou registrada não só em fotografias, materiais gráficos e peças de divulgação, como também na memória de todo mundo que viveu o Festival. Em vários anos, o nome e o logotipo do Serra Azul ocuparam espaço de destaque na fachada do Palácio dos Festivais, evidenciando uma parceria que fazia parte da própria identidade do evento.
Entre as peças preservadas pelo hotel está também um Kikito produzido pelo artesão gramadense Xixo, em uma época em que a estatueta ainda era confeccionada manualmente em madeira. Datado de 1986, o exemplar traz na base a inscrição “Kikito de Destaque de Patrocínio” e foi entregue ao Serrazul pelo próprio Festival, como reconhecimento por sua contribuição. Durante esta edição, a peça está exposta na Sala da Lareira, ao lado de outros registros dessa história.
3. Verão, cinema e piscina
Além da hospedagem, o Serra Azul manteve, entre 1974 e 1996, um amplo espaço de lazer na Praça do Moinho, a cerca de 200 metros do hotel, onde hoje está localizada a Aldeia do Papai Noel. O local reunia piscinas, quadra de tênis, discoteca, bar e restaurante. Aberto também ao público, tornou-se um dos principais pontos de encontro e convivência da cidade, permanecendo na memória de milhares de moradores e visitantes.
Como as primeiras edições do Festival aconteciam no verão, o espaço logo passou a fazer parte da movimentação do evento. Entre uma sessão e outra, artistas, jornalistas e convidados aproveitavam as piscinas, o sol e o clima descontraído. Ao redor, fãs e curiosos aguardavam a oportunidade de ver de perto os rostos que conheciam das telas.
Foi nesse ambiente informal que surgiram algumas histórias mais ousadas dos primeiros anos do Festival. Em uma época de costumes mais conservadores, artistas em trajes de banho, encontros à beira da piscina e momentos vividos longe da programação oficial despertavam curiosidade, comentários e polêmicas. Essas histórias se somaram ao clima de irreverência que marcou as primeiras edições e ajudaram a ampliar a atenção da imprensa e a repercussão do Festival para além das salas de cinema.
4. 1988: as cinco estrelas da Embratur
À medida que o Festival crescia e atraía um público cada vez maior para Gramado, o Serra Azul também precisava acompanhar a transformação da cidade. O hotel passou por sucessivas ampliações ao longo das décadas de 1970 e 1980, aumentando sua capacidade e qualificando sua estrutura. A primeira expansão aconteceu já em 1974, menos de dois anos depois da inauguração.
O hotel crescia junto com uma Gramado que deixava de ser apenas um destino de veraneio e começava a se consolidar como referência nacional em turismo, cultura e hospitalidade. Receber artistas, jornalistas, autoridades e convidados do Festival exigia mais do que novos apartamentos: era preciso aprimorar serviços, ambientes e padrões de atendimento.
O maior reconhecimento veio em 1988, após uma nova etapa de expansão, quando o Serra Azul recebeu da Embratur a classificação oficial de hotel cinco estrelas. Naquele período, a categoria era concedida pelo Governo Federal a partir de uma avaliação rigorosa de estrutura, serviços, equipamentos e atendimento.
Com a conquista, o Serrazul tornou-se o segundo hotel cinco estrelas do Rio Grande do Sul e o primeiro da Serra Gaúcha. O título colocou o hotel entre os principais empreendimentos hoteleiros do estado e representou um marco para o desenvolvimento turístico da região.
Havia quinze anos que as estrelas do cinema se hospedavam no Serrazul. Em 1988, o hotel conquistava oficialmente as suas.
5. A tradição que segue viva e se renova a cada edição
O tempo passou, o Festival mudou de estação, do verão para o inverno de agosto, ganhou tapete vermelho na Rua Coberta e projeção internacional. E a relação com o hotel nunca parou de se renovar.
Em 2018, na 46ª edição, o Serrazul recebeu oficialmente os debates dos filmes concorrentes. As rodas de conversa reuniram cineastas, elencos e equipes de produção em diálogos abertos com o público e a imprensa, dentro do hotel com nomes como Ísis Valverde, Adriana Esteves e Edson Celulari compartilhando bastidores, processos criativos e impressões sobre as obras exibidas.
Há também aquilo que não depende da programação oficial. A cada edição, o Serrazul recebe entrevistas, encontros e conversas ligadas ao Festival. Depois das sessões, os bares do hotel seguem movimentados até mais tarde, reunindo artistas, equipes, jornalistas e também quem quiser viver essa atmosfera de perto. Tudo acontece de forma natural: parte dessa história sempre passou por aqui. E, a poucos minutos a pé e onde tudo acontece, o Serrazul continua sendo um dos endereços onde o Festival se prolonga para além das telas.
Essa trajetória também pode ser percorrida dentro do hotel. No corredor que leva à sala de jogos, estão reunidos os cartazes de todas as edições do Festival de Cinema de Gramado, da primeira, em 1973, às mais recentes. Cores, tipografias e estilos gráficos revelam as transformações de cada época e conduzem o visitante por mais de meio século de cinema brasileiro. Mais do que um acervo, é uma linha do tempo que mantém viva a ligação entre o Serrazul, o Festival e a história de Gramado.
6. Neste ano, tudo volta para o Serrazul
Na 54ª edição, de 12 a 22 de agosto de 2026, o Serrazul volta a ocupar um papel central na programação do Festival. O credenciamento oficial, entrevistas, coletivas de imprensa, estreias e outros momentos do evento acontecem dentro do hotel, trazendo de volta aos seus corredores ainda mais movimentação de artistas, jornalistas, produtores e equipes de cinema que marcou tantas edições.
Tudo isso acontecendo em um Serrazul em constante renovação. O processo de modernização iniciado em 2017 já transformou acomodações, todas as áreas sociais, e continua avançando para oferecer uma experiência cada vez melhor aos hóspedes. Cada mudança é realizada sem perder a essência, a tradição e o cuidado que trouxeram o hotel até aqui. O empreendimento permanece sob o comando da família Perine, a mesma que o fundou, hoje em sua terceira geração, dando continuidade à visão iniciada pelo Vô Bepi há mais de cinco décadas.